3 de jul de 2012

Rogério Gonçalves dos Santos -

LIBRAS: DO DIALETO A LÍNGUA

Criador do primeiro dicionário de Libras Cristão



 

Rogério Gonçalves dos Santos
Intérprete e tradutor em Língua Brasileira de Sinais (MEC/Prolibras 2007)
Desenvolvedor do primeiro dicionário de sinais Cristãos em Libras.
Especialista em Informática pela - UNIVAP (São José dos Campos)
Docente de Libras na Faculdade Católica e na UNIVAP São José dos Campos SP.
rogerio.prolibras@hotmail.com.




Resumo: As posições delineadas a seguir pretendem demonstrar que a contribuição com a elaboração de um conjunto mínimo de regras e padrões de vocabulário em LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) trará um definitivo e inequívoco reconhecimento desta língua enquanto forma legal de comunicação em sinais gestos-visuais, hora oficialmente reconhecida por lei e assim proporcionando-lhe um perfil unificado favorecendo a integração entre as várias comunidades de pessoas com surdez e intérpretes em LIBRAS dentro do território nacional. Dispõe-se desta forma de uma comunicação efetiva enquanto instrumento de integração social estando então disponível a todos independentemente de qual grupo ou comunidade se origine, característica esta que se espera de qualquer língua historicamente aceita entre seus utentes e ou defensores da práxis lingüística em questão já plenamente conferida em seus vários dialetos hoje em uso, favorecendo ainda neste quadro a verdadeira inclusão sócio-cultural.




Introdução


Em 1981, com o reconhecimento pela ONU (Organização das Nações Unidas) do ano internacional da pessoa com deficiência iniciou-se em todo o planeta uma nova era no que se refere à preocupação com a acessibilidade.
No Brasil a Lei 10.098 de 19 de dezembro de 2000, deu início a um processo irreversível e com impactos até então imprevisíveis do ponto de vista do desenvolvimento social das pessoas com necessidades especiais.
Com a regulamentação da Lei 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a língua brasileira de sinais, já em seu primeiro artigo reconhece-se a LIBRAS como meio legal de comunicação, e como tal com características gramaticais e estruturais próprias.
Finalmente, com o Decreto Presidencial 5.626 de 22 de dezembro de 2005 fica garantida a presença dos profissionais intérpretes em locais públicos, privados ou institucionais levando assim a Libras ao status de “língua” e favorecendo sua difusão nos meios educacionais.
Concluindo este breve histórico legal da LIBRAS faz-se necessário pontuarmos algumas definições básicas do significado de “língua” e “dialeto”, procurando observar em termos de praticidade sua relação como recurso de interação entre seus usuários e comunidades necessitadas de aquisição de cultura e integração social.


As diferenças lingüísticas como barreiras sociais.


Segundo o “Dicionário de Lingüística” (JEAN DUBOIS, et al, 1973), “o dialeto é uma forma de língua que tem seu próprio sistema léxico, sintático e fonético, e que é usado num ambiente mais restrito que a própria língua...”
Esta definição nos leva a uma análise da atual conjuntura contextual em que se encontra a LIBRAS. De um lado as conquistas visíveis de uma comunidade até então ignorada vivendo das migalhas de instituições e ações governamentais, onde com as novas leis mencionadas acima alcançaram um estado de “língua” tal como definido na lei, e sendo assim a “língua mãe” para seus usuários e comunidades surdas. De outro lado, uma realidade comprovadamente diferente em seu contexto gramatical, visto que basta apenas um pequeno distanciamento geográfico entre uma comunidade e outra para observarmos uma quebra no que se espera existir em uma linha de comunicação que deveria ser comum a qualquer língua, constatando-se neste caso o emprego de significados diferentes para vocábulos simples, às vezes tão diferentes que chegam a representar figuras obscenas para um ou significando um simples artefato para o outro.
Vejamos esta realidade em um exemplo prático. Em um recente encontro de jovens surdos de uma determinada comunidade religiosa ocorrido em uma cidade turística do interior de São Paulo, havia representantes do Rio de Janeiro e de São Paulo os quais trocavam experiências e atualizavam suas participações e projetos pastorais. Como é costume em qualquer reunião deste porte, um dos componentes (um surdo residente na cidade do Rio de Janeiro) saiu em busca da composição de uma lista de nomes e de e-mails entre os participantes do evento para assim continuarem em contato ao fim do evento. Contudo, como este somente tinha uma folha de papel e ainda lhe faltava um artefato para escrita como, por exemplo, uma simples “caneta”, passou também a solicitar aos que estavam em seu caminho, o empréstimo da ferramenta de escrita, neste caso, uma caneta.
Enquanto este participante, ao qual chamarei a partir de agora de “surdo-A”, estava se comunicando com os participantes de seu grupo oriundos do Rio de Janeiro, as respostas eram apenas do tipo: “Não! eu não tenho” onde em libras podemos descrever como:
Configuração da mão direita em L horizontal, palma para a esquerda, indicador para frente e polegar para cima. Balançando esta mão pelo pulso para baixo rotacionando o polegar no mesmo eixo do antebraço no sentido anti-horário.
Um sinal comum e muito conhecido entre todas as comunidades. Contudo, o sinal em libras que o “surdo-A” estava utilizando para representar o artefato “caneta” tinha a seguinte descrição em libras, e cuja origem é a comunidade de surdos do Rio de Janeiro:
Mão esquerda com configuração de mão número em “um” (feito com apenas o indicador) e a mão direita com a configuração da mão ‘CM45” . A mão direita faz então movimento de “abre e fecha” por sobre a extremidade do indicador da outra mão.
Acontece que este último sinal descrito, originário em princípio das comunidades surdas do Rio de Janeiro e perfeitamente conhecido por eles, representando “caneta”, tem outro significado e totalmente diferente para algumas comunidades de surdos de São Paulo, conforme dicionário Libras do “ACESSA SÃO PAULO”, sugerindo este sinal como sendo descrito como: “Ação de excitar o pênis com a boca”.
Pode-se então imaginar a reação de alguns dos indagados, principalmente quando estes eram do sexo feminino.
Podemos então nos perguntar, como uma palavra pode ter significado tão adverso seguindo-se a mesma orientação no que se refere às categorias gramaticais da LIBRAS? Faço esta observação no sentido de que isso se torna um obstáculo para o desenvolvimento cultural e social daqueles que se utilização desta forma de comunicação. Esta polissemia ou parônimo dependendo da análise que se faz dos parâmetros utilizados neste ou naquele sinal, não deveria ser motivo para uma observação voltada aos possíveis entraves que o exemplo dado trouxe à comunicação.
Haja vista que o significado das palavras numa análise puramente gramatical faz parte dos estudos de uma língua e a libras como tal, também passa por esta abrangência, mesmo que se utilizando de recursos analíticos utilizados também na língua portuguesa.
A comparação com regras gramaticais da língua portuguesa, a meu ver, é um procedimento saudável, não com o intuito de negar as diferenças sintáticas entre as duas línguas, pois isso nos leva a olhar a libras como língua e não apenas como um conjunto de signos restrito a um grupo social específico, mas uma língua natural também formada por tratos lingüísticos que passam pela morfologia, fonologia, sintaxe e semântica.
Todavia, esta análise exige de todos nós a observância de que parâmetros gramaticais existentes na língua portuguesa e não na libras, nos levam a possíveis interpretações desastrosas como o exemplo citado acima; confundir o empréstimo de uma “caneta” com uma proposta indecorosa. Na língua portuguesa, assim como em qualquer outra língua, isso não seria possível, pois no conjunto de partículas que formam uma frase obedece-se a normas gramaticais e a uma fonte comum de origem dos vocábulos.
Sabe-se também, que a classificação dos vocábulos na língua portuguesa é que dá forma, coerência, organização e sentido a oração a que pertence, com a observância de critérios “formais, mórficos, semânticos e funcionais”. Assim numa frase simples em LIBRAS como na pergunta: “Você tem caneta?”, é possível se utilizar apenas um “signo” (sinal) e pela sua função gramatical dada pela “expressão facial”, mas, que também formariam a mesma outra frase com conotação sexual, faltando-lhe desta forma outros componentes para se evitar este conflito de interpretação.
Pode-se então tentar justificar dizendo que estes critérios também podem ser encontrados na língua brasileira de sinais como exemplo:


Fonologia (Morfema) = Conjunto de três quiremas (CM – Configuração das mãos; PA – Ponto de articulação; M – movimento).
Morfologia = Soletração (Datilologia) e gestos classificadores.
Sintaxe = Expressão facial e/ou corporal.


Podemos ainda constatar estas questões nos sinais em libras de várias regiões do país ou mesmo em comunidades bem próximas umas das outras, como nos três exemplos abaixo:


Sinal em libras de “Estado do Espírito Santo”.
Sinal do “Estado do Pará”.
Sinal de “Praça”.
Sinal de “Tomate”.


E muitos outros que, ou apresentam parâmetros totalmente diferentes em seus componentes (CM, PA, M, D, EF) para um mesmo significado, ou apresentam significados completamente diferentes para parâmetros idênticos ou muito similares.
Todos estes sinais a que me refiro foram consultados no Dicionário Libras Ilustrado – Governo do Estado de São Paulo – 2002 (CDRom), Dicionário Libras Web 2.1 2008 e Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilingüe (2001).
Não é necessário ressaltar que os exemplos acima não causariam celeuma alguma em qualquer produção gesto-visual apesar de requererem de seus interlocutores alguma elucidação caso fossem estes sinais trechos de alguma palestra, aula ou outro tipo de transmissão de conhecimentos ou debate, ou ainda em uma simples conversa descontraída.
Mas, sob a égide da defesa e do respeito à diversidade cultural, cuja intenção deste artigo não é ignorá-la em hipótese alguma, tende-se a não perceber os riscos que estes homônimos poderiam criar, ignorando-os como entrave na comunicação em sinais e dando-lhes apenas um status de riqueza na diversidade.
Também não se pode dizer que se trata apenas de um caso lingüístico de polissemia, pois quando se analisa este caso semântico na língua portuguesa verifica-se a existência de outros argumentos componentes da oração onde se eliminaria este desvio.
São exemplos:


“Meu primo ocupa um alto posto naquela indústria”.
“Abastecerei meu carro no posto mais próximo”.


“Enviarão convites de graça para os mais pobres”.
“Os mais pobres agradeceram a graça recebida”.


Não há como se enganar com o sentido destas frases analisando-se o significado da palavra “posto” ou da palavra “graça”, pois, os recursos sintáticos claros existentes nas suas respectivas orações não nos permitem interpretação.
Esta “facilidade”, obviamente não ocorre em muitas das expressões em libras visto que neste caso uma expressão inteira poderia se desenvolver com a presença de um único sinal e uma única expressão facial e/ou corporal.
Exemplos:


-Eu te ajudo.
-Com licença?
-Trabalhei muito!
-Você tem caneta?


Além destas questões, posso contribuir ainda com situações práticas nas minhas atuações como intérprete em libras profissionalmente junto as empresas da minha região (Vale do Paraíba – São José dos Campos SP) onde atualmente, no sentido de cumprirem as exigências legais das “cotas” (Lei Federal 8.213/91) estas têm contratado surdos, residentes locais e de outras regiões do Brasil.
Num dos muitos casos, por exemplo, em uma empresa em que fui chamado para interpretar uma reunião anual lá intitulada de “Apresentação de resultados”, se discutiam e eram passadas informações sobre lucros, prejuízos e perspectivas para o ano seguinte.
A grande dificuldade que eu encontrava era exatamente de tentar esclarecer expressões com administração, economia, investimento, verbas, sinais estes e outros que podem ser encontrados em diferentes formas nas fontes de consultas acima citadas e em outras disponíveis em mídia eletrônica como: http://sistemas.virtual.udesc.br/surdos/dicionario/, e http://www.ines.gov.br/libras/index.htm.
Por mais que o papel do intérprete seja muito claro eticamente falando, faz-se necessário nestes casos um grande dispêndio de tempo para que se possa trazer a um nível mais ou menos uniforme entre os surdos participantes, o esclarecimento de muitos destes sinais para que haja um mínimo de compreensão ente o público surdo. Com isso é claro, a sincronia entre o que o palestrante não surdo e usuário da língua portuguesa transmite e o que o intérprete em libras transmite para os usuários da LIBRAS fica sem dúvida prejudicada.
Isto também ocorre em salas de aula onde se podem encontrar surdos oriundos de várias comunidades e cidades como também pude também presenciar nos projetos da AVAPE - Associação para Valorização de Pessoas com deficiência, em conjunto com a SERT - Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho, do Governo do Estado de São Paulo. Foi necessário que eu criasse um conjunto de sinais e expressões padrão para a turma de surdos para que pudéssemos acompanhar o andamento das aulas sem que nosso grupo (intérprete e surdos) ficasse defasado em relação ao restante da turma.
Um comentário bastante interessante proferido por Vanessa Braga de Sa, em uma de suas resenhas sobre “Os dialetos regionais e sociais” pode nos dar alguma contribuição no sentido de encontrarmos caminhos para a solução destas questões:


A língua por sua vez tem caráter nacional e que permite a comunicação entre os indivíduos de um país, onde a maioria são interlocutores eventuais no seu estado atual dos meios de comunicação e quase todos os habitantes do território nacional. A língua deve atender as necessidades léxicas que se desenvolvem assiduamente, entretanto nos setores científicos e técnicos. No mundo atual somente uma língua, sustentada por um poder político é que estará em condições de satisfazer a certas exigências, em que supõem na fixação de uma norma da língua e na existência de uma nova norma escrita estabilizada, bem como no desenvolver de uma nova literatura no ensino obrigatório de novos idiomas e sua difusão em todos os meios de comunicação como exemplo o rádio, a televisão, a imprensa, a literatura, ou seja, tanto no interior como no estrangeiro.


Não se trata aqui mais uma vez, de se tentar criar um uniligüismo em libras como ela própria cita, referindo-se as línguas faladas, mas sim, de favorecer a um quesito importantíssimo no que se refere à função social da comunicação. De acordo com Saussure (2010, s/p).


A língua é uma parte essencial da linguagem. A língua é um objeto unificado e suscetível de classificação. É um produto social da faculdade da linguagem e conjunto de convenções necessárias, adotada pelo corpo social para permitir o exercício desta faculdade nos indivíduos.


Se a língua, além de sua função social é também uma ferramenta de aquisição de conhecimento, deve-se então tornar possível que esta ferramenta esteja acessível a todos os viventes usuários desta língua nesta comunidade.
Desta forma, nota-se que no caso da comunicação em línguas de sinais quando estes usuários têm de se deslocar de suas comunidades ou ainda, necessitam competir por sua participação na sociedade seja no que se refere ao direito ao trabalho ou a educação em seus vários níveis, as dificuldades se tornam ainda mais aparentes, pois estes mesmos cidadãos são obrigados a assimilar “distâncias” lexicais muitas vezes diretamente proporcionais as suas distâncias geográficas.
Podemos verificar claramente estas dificuldades geográficas quando nos deparamos com a participação de surdos das regiões do norte e nordeste do país aos mercados de trabalho do sul e sudeste e também nos núcleos estudantis de ensino superior.
Neste sentido, ainda enfatizando que as dificuldades das diferenças “das línguas brasileiras de sinais” em suas regiões podem causar, devemos lembrar também das pessoas afetadas por deficiências de audição e visão simultaneamente, os chamados “surdo-cegos” que se utilizam de uma técnica de comunicação chamada de “Tadoma” para que através de um guia-intérprete este possa compreender os sinais tocando-lhe as mãos. Assim fica óbvio também que ele ficará a mercê dos sinais que o guia-intérprete trará em sua bagagem de conhecimentos ou experiências vividas em sua comunidade de origem tendo então o surdo-cego em questão, mais ou menos facilidade na compreensão do assunto ou contexto alvo daquela interpretação que lhe está sendo oferecida pelo intérprete.
É possível também constatarmos estas grandes dificuldades quando mudamos nosso olhar para as diferenças existentes ente sinais de surdos e intérpretes das várias comunidades religiosas em todo o país, mesmo que estas professem a mesma fé e orientações cristãs, o que é também muito comum.
Podemos encontrar, por exemplo, uma dezena de orações padrões com signos e organizações sintáticas tão diferentes que dependendo de quem as analisa gramaticalmente dentro de uma determinada região poder-se-ia constatar desde erros gramaticais até erros na própria compreensão de interpretação sendo muitas vezes completamente diferentes do que espera a própria Igreja enquanto fonte de educação, a que ela pertença.
No caso das Igrejas isto parece ser ainda mais sério, pois, dá-se a estas comunidades uma liberdade a meu ver, extrema no que se refere à comunicação em libras ainda que sob a justificativa do respeito à diversidade.
Isto torna também difícil o compartilhamento de informações e o próprio resultado esperado por suas ramificações no sentido da própria evangelização e catequese.
Vêem-se nas televisões de conteúdo de caráter religioso, intérpretes que são tidos referenciais nesta área, apenas por estarem em evidência, fazerem interpretações com sentidos totalmente diferentes uns dos outros mesmo que estes estejam transmitindo os mesmos conteúdos. Às vezes é possível obter-se mais do que uma interpretação com sentidos tão discordantes que chegam ao absurdo de parecerem se tratar de outro assunto. Com estas minhas observações, principalmente no que se refere à religião, não pretendo infringir a estes representantes a responsabilidade de um resultado negativo em seu objetivo, pois se sabe do grande avanço que a comunidade surda obteve com a sensibilização das Igrejas da necessidade da inclusão do surdo em suas atividades, contudo, quero também frisar o quanto mais se poderia conseguir se um conjunto mínimo de sinais religiosos existisse em comum a esta comunidade, seja para o surdo seja para o ouvinte-intérprete.


Processos avaliativos criados por lei pelo governo federal no âmbito do credenciamento de intérpretes e docentes


Faz-se necessária também uma análise dos processos avaliativos criados por lei pelo governo federal no âmbito do credenciamento de intérpretes e docente para atuarem nas várias instituições educacionais, privadas ou públicas.


O Prolibras é um exame de proficiência que certificará, anualmente, docentes, e tradutores e intérpretes de Língua Brasileira de Sinais - Libras. O Prolibras foi criado pelo Ministério da Educação (MEC) do Brasil para cumprir a Lei 10.436/2002 e o Decreto 5626/2005. O MEC nomeou uma comissão formada por professores de universidades (UnB, UFRJ, UFSC, UPE), representantes de várias secretarias desse ministério (SEESP, SESU, SETEC, SEED), da FENEIS e do INES que tiveram a responsabilidade de elaborar o edital e os manuais do aplicador e do participante; escolher os conteúdos programáticos e elaborar as provas.




A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) é também a instituição responsável pela elaboração das provas práticas e teóricas do PROLIBRAS em todo o território Nacional.
Também neste caso ficam claros os entraves que a problemática criada pelas diferenças regionais da língua brasileira de sinais veiculada nestas avaliações por seus interlocutores surdos trazem aos resultados finais, já que estes na sua grande maioria são oriundos de comunidades da região sul do país mais especificamente Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
O grande número de reprovações nas provas práticas e teóricas causados pelo simples desconhecimento de sinais importantes para o entendimento dos contextos e enunciados apresentados em suas provas, que são sempre apresentadas acertadamente em forma de vídeos pré-gravados.
Segundo dados obtidos no próprio site da UFSC, temos :


Curitiba-PR índice de reprovação média de 57,14%
Região Sul índice de reprovação média de 58,61%
Região Sudeste índice de reprovação média de 62,83%
Regiões Norte, Nordeste e Centro-oeste índice de reprovação média de 65,83%
Rio Branco-AC índice de reprovação média de 84,62%


Fica então mais uma vez claro que os índices de reprovação aumentam quanto mais as localidades de execução das provas se afastam da região sul, de onde provêm as fontes dos sinais em libras utilizados para a elaboração das provas do PROLIBRAS.
Fica também claro que as características das línguas regionalizadas afetam diretamente os resultados do aproveitamento dos interessados em obter esta certificação.
O maior sentimento de inconformidade entre os participantes reside exatamente no fato de as diferenças entre os sinais vistos durantes as provas, seja na parte eliminatória seja na segunda fase a prática, serem desconhecidos já que são comuns apenas àquelas regiões.
Ora, a prova é única para todas as regiões do país, e é formulada e corrigida por membros de uma única região? Isto não seria problema se então todos tivessem acesso ao vocabulário e expressões originárias também daquela região? Ou ainda, se se defende o respeito às diferenças regionais, as avaliações não deveriam também ser formuladas e corrigidas por membros de cada região em que se aplicam as provas?
Estas questões apontam para um equívoco lingüístico que vai contra o que se espera de uma forma de comunicação que é merecidamente chamada de língua.
Já existem hoje várias iniciativas de se criar um grupo de sinais referenciais e contextualizações em libras como é o caso dos dicionários impressos de Fernando César Capovilla e Walkiria Duarte Raphael (2001) e agora com sua versão atualizada de 2010 “Deit-Libras”.
Há também o vídeo-dicionário de Libras para assuntos informáticos o “Dilibras” trabalho este de pesquisa realizado pela FENEIS Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos e pelo FESAI Fórum de estudos Surdos na Área de Informática, ambas as instituições localizadas no Rio Grande do Sul.
No caso dos sinais religiosos, várias iniciativas isoladas vêm sendo criadas pelas suas respectivas comunidades no sentido da criação de uma referência única de símbolos e contextos, valendo ressaltar a iniciativa inovadora no Brasil e no mundo com a criação do primeiro vídeo-dicionário para sinais em LIBRAS para assuntos cristãos, o chamado Projeto DDLC - Dicionário Digital Libras Cristão .
Vê-se então que alguns dos mesmos autores e estudiosos que optam por dar a libras uma liberdade lingüística em suas características de dialetos regionais, também lideram uma campanha no sentido de se criar um conteúdo único para referência e pesquisa facilitando seus interlocutores e usuário na transmissão e aquisição de conhecimentos.
Observemos então que a definição de dialeto definido também pelo dicionário Priberam da Língua Portuguesa que é “Dialeto é uma linguagem peculiar a uma região” fica um tanto quanto fora de uma visão que por um lado favorece a manutenção da língua brasileira de sinais como um conjunto de dialetos compreensíveis entre si e outra que busca uma uniformização necessária.
Não concorrer para está unidade seria como dizer, por exemplo, que o seguinte texto composto abaixo deveria ser entendido por qualquer brasileiro nato residente no território nacional, simplesmente porque quem o produziu é também usuário da língua portuguesa.


“Agora buchuda, a bonitona da bala-chita, precisará de banca para prosseguir seus estudos, pois em breve se verá atenta ao gogó, com a farda e o engrossante em punhos.”


A livre tradução feita por mim seria:


“A mulher agora grávida, que se achava a maioral, precisará de aulas particulares para prosseguir em seus estudos, pois em breve se verá atenta ao ‘mamá’ com o uniforme da escola e a mamadeira em punhos.”


As palavras da expressão acima são oriundas do Estado do Sergipe e comumente utilizadas na região de Aracaju.
Assim, pretendo com este artigo dar a importância que a LIBRAS enquanto língua merece ter e desta forma tentar levá-la definitivamente ao status de que lhe é de direito.
Tornar possível a integração nacional entre seus usuários e principalmente entre aqueles que mais necessitam ser favorecidos com o que realmente importa a acessibilidade e a integração sócio-cultural, e estes possam realmente ver suas necessidades tratadas como reais e não apenas como um sonho ainda a ser alcançado.


Metodologia


A pesquisa necessária para a elaboração deste trabalho foi realizada de forma qualitativa, partindo de pesquisas bibliográficas que foram cuidadosamente selecionadas e deram o embasamento teórico para essa temática.


Considerações Finais


A verdadeira inclusão se torna mais difícil, pois passa antes de qualquer mudança legal ou estrutural com a criação de regras e normas, pela mudança interior de cada um de nós.
Passa também e principalmente por uma tomada de decisão corajosa e impetuosa, que tem de acontecer desconectada de qualquer pseudo domínio velado, das autorias ou iniciativas particulares, tem de ser feita realmente em favor dos surdos e pelos surdos, tem de ser praticada com total desprendimento por aqueles que estão à frente deste processo iniciado tão recentemente em nossa sociedade.
Devemos então nos aproveitar deste momento de amadurecimento que estamos vivendo, enquanto ouvintes e aprendizes da língua brasileira de sinais que tanto amamos e tomamos com cerne de nossos estudos, devemos iniciar mais um avanço em direção ao desenvolvimento social e cultural que ela pode proporcionar as comunidades surdas, ainda hoje tão distantes de recursos que nós os ouvintes já possuímos há tanto tempo e que às vezes nos impedem de enxergarmos o que está tão claramente se apresentando a nossa frente.
Esta maravilhosa forma de se expressar, a LIBRAS, não deve ser usada para satisfazer nosso orgulho próprio, não deve ser usada apenas para ficarmos discutindo em meios acadêmicos e intelectuais longe das massas e daqueles que ainda sofrem por não terem acesso à educação e ao trabalho, ambiente aos quais para nós são conseguidos apenas por definições ou de simples escolhas.
Encerro as minhas observações neste artigo com uma frase do estudioso lingüista Boaventura de Souza Santos (1995 s/p):


“Temos o direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes, quando a igualdade nos descaracteriza.”

Libras para padres e leigos



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